4.8.21

Portfólio dos(as) Educadores(as) de Santa Catarina

Estou entre os autores sugeridos aos professores de Santa Catarina para trabalhar com o letramento literário no gênero Miniconto.

 

E sigo acompanhado de figuras que admiro demais e de referências regionais e nacionais. Uma honra sem tamanho!

 

Para conferir o Portfólio, acesse: https://drive.google.com/file/d/1elEQ5zCpErEsSYK9jWTacZllu-MenPfq/view?usp=sharing







 

25.7.21

Estado lastimável

A construção coletiva 

da intolerância

 

A defesa enfática

da hipocrisia

 

A manifestação popular

pela opressão

 

A homenagem solene

à tortura

 

O diálogo aberto

em prol da censura

 

Os critérios técnicos

para o desmanche

 

Com amplo apoio

da minoria


A triste nação

em Estado lastimável

de febris delírios

sadopatrióticos

31.1.21

Quem é que ousa?

E o povo saiu às ruas em festejos

quando as nuvens de tormenta

daquelas bem agourentas

tomaram certos ares benfazejos


A peste enfim regredia

a fome se empaturrava

e a guerra se inebriava

nas farras de noite e dia


Foi quando então se lembraram

que a morte não se rendera

 e, por fim, se perguntaram:


Quem é que ousa brandir o machado

quando o pescoço sobre o cepo

é justamente o do carrasco?

9.1.21

2º Prêmio Literário Afeigraf

 A poesia Desperdício foi selecionada no 2º Prêmio Literário Afeigraf, organizado pela Editora Scortecci.


Para ler a poesia premiada, acesse: https://naovende.blogspot.com/2016/07/desperdicio.html

24.12.20

O carbono de que somos feitos

Naqueles tempos, as chamas queimavam a olhos vistos, por dias e noites, por meses a fio

E havia ainda aqueles dispostos a incendiar-se, pôr a mão ao fogo, a fim de descobrir de que combustível eram feitos: madeira grossa, cepo úmido, que fumegaria aos poucos a casca e pronto; ou lenha seca e rachada, que consumiria-se plenamente, às cinzas

Havia sempre novas chamas, aqui e acolá, de propósito ou por descuido. Enquanto o céu, tomado de fagulhas e fuligem, ansiava por novos ventos e por chuva, para que a estiagem e o fogo dessem vez, enfim, a novo período de esperança.

25.6.20

Pasárgada

O tempo devorou meus sonhos bucólicos.

Pasárgada tornou-se um balneário, repleto de turistas com paus de selfie, lives e hashtags.

Não se faz mais uma refeição decente por menos de 200 patacas, que é quase meio salário dos que ali trabalham; mas que não moram mais ali, pois o aluguel também subiu após a renovação do centro histórico e os polpudos contratos para a temporada.

Agora, os trabalhadores de Pasárgada moram do outro lado do rio, nos manguezais, em palafitas amontoadas e abalroadas. No tempo das monções, a água, a lama e o óleo das embarcações invadem as casas. O rei sempre lamenta muito, mas lamenta enquanto banqueteia-se cercado por seus novos amigos: os grandes empresários que incentivam o turismo, que administram o porto e que movimentam a economia local.

Vou-me embora de Pasárgada, mas não sei se resta para onde ir.

29.3.20

Revista Subtextos

Está no ar a 1ª Edição da Revista Subtextos, na qual foi publicado o conto A cada um seu fardo.


A revista está disponível para download no site gratuitamente: http://www.escritorbrasileiro.com.br/subtextos

6.3.20

Revista Escritor Publicado

O conto “A cada um seu fardo” foi selecionado para publicação na primeira edição da revista do projeto Escritor Publicado - http://escritorpublicado.com.br/

Levando em conta a média de caracteres e palavras dos meus textos, este é um conto longo. Deve até ultrapassar uma lauda!

16.2.20

Estática

Todas as noites, no horário do jornal, sentava na poltrona no meio da sala, ligava o rádio e propositalmente tirava-o de sintonia

Naqueles tempos inconstantes e nebulosos, a estática, um caos ordenado, mensurável, cientificamente explicável, era a única coisa capaz de mantê-lo são

7.1.20

Arquétipos

No palco, o fantoche grita
“eu sou um menino de verdade”
estalando o pé de madeira
sobre as tábuas nobres do palco

Títere e titereiro confundem-se
em uma figura singular e pitoresca
- melodramática

Os fios da trama estão ridiculamente expostos

mas o público simplesmente ignora
e embarca em histórias fantasiosas


Não há ninguém por trás das cortinas,
pois não é mais necessário

O espetáculo criou vida
e segue crescendo
- incontrolável

14.8.19

Antropogravura

No princípio, os exemplares são quase idênticos. Passam todos por um processo padrão: são polidos e lustrados, corrigem-se as imperfeições; se necessário, com auxílio de lixas

Mas o tempo encarrega-se dos entalhes, das aparas e das arestas. Não há moldes que resistam; não há superfície que se mantenha lisa; não há estrutura que se mantenha inabalada. E são as rachaduras que tornam cada composição única; são precisamente as imperfeições que as tornam singulares

Cada obra, um experimento; cada criatura, um criador

13.8.19

Desassossego

Um instante
que ressoa

destilando ressacas

na memória intermitente
perturbada

gotejando

num espelho d'água






16.6.19

Domocracia

Como denunciara Cícero

pro domo sua

por sua casa
por sua família

em causa própria


pelos desvios
pelos atalhos

os meios pelos fins


do feitio dos canalhas
e demagogos

pro domo sua

e ora pro nobis

Obstinada

enquanto conteve

a primavera entre os dentes

passaram-se outonos

14.1.19

Ciclo das águas

O degelo foi lento
gradual

afiadas estalactites
partiram-se liquefeitas

a alva cobertura
desfez-se em pranto

e o fluxo convergente
ganhou corpo, corrente


Em seu percurso sinuoso
as águas passadas

moveram os moinhos
da consciência

remoendo as mágoas


e transbordaram
sobre a terra seca

preparando o solo
para nova safra


enfim, primavera