31.1.11

Chuva

Uma nuvem destrambelhada

cheinha d´água


enroscou-se na antena


dum desses prédios altos

30.1.11

29.1.11

Indistinto

Dialogava
ao mesmo tempo

com tantas referências

que sua obra
no fim das contas

era apenas um burburinho







2011 - I Prêmio AltFest! de Poesia - VII Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;
Será publicada na coletânea do concurso

5.1.11

Insistentes

A cidade tenta

acobertar seus crimes


Mas os corpos na calçada

insistem em levantar-se

todas as manhãs

para lutar por mais um dia

4.1.11

Livres

É duro soltá-las assim, sabendo que lá fora elas podem apanhar muito

Mas, uma vez que a separação é inevitável, nós precisamos, além de dar corpo, abastecê-las de sentidos e referências, de possíveis e intangíveis situações, antes de nos despedirmos com um adeus e boa sorte

Não adianta deixá-las trancadas no sótão, presas aos nossos conceitos, a gente tem que criar as poesias para mundo

3.1.11

Afoito

O ônibus partiu da central

devorando o asfalto

apressado


Ao fazer uma curva fechada

engasgou-se


o poste travou


bem no meio da garganta

7.12.10

Minimalismo

Papelão sobre tela
jornal sobre calçada

Muito pouco
sobre quase nada

A dura arte de sobreviver







2012 - Selecionada no III Concurso de Poesias Revista Literária - Editora Scortecci e Revista Literária - Brasília - DF;
2011 - 7º lugar no II Concurso TOC140 de Poesia no Twitter - VII Festa Literária Internacional de Pernambuco - Olinda - PE;

6.12.10

Ainda hoje

De dentro dum ônibus!

Juro pela minha mãezinha - sinal da cruz - que Deus a tenha.

É uma coisa miúda, vai no bolso da camisa, dá até impressão de que tem que falar e ouvir um de cada vez, mas o moço da loja me garantiu...

Cê tá me ouvindo direitinho, né?

Oi?

Ah bom...

3.12.10

Trinta e poucos

Muito enfáticos
os pelos de gato

espalhados pelas costas

denunciavam a solidão

2.12.10

Autocrítica III

Poesia de saguão de entrada
- no hall do condomínio -

reprodução fiel
perfeitamente traçada

o plágio descarado

de uma obra prima

1.12.10

Autocrítica II

Poesia de power point

rimas fáceis
e preguiçosas

misturando-se à paisagem

natureza morta

30.11.10

Autocrítica I

Poesia de jardim

em estilo neoclássico
imóveis e defasadas

estátuas

cobertas de musgo

29.11.10

Reality show

No centro do auditório, a justiça permanece sentada e vendada, enquanto o apresentador aponta para um político corrupto, depois para um ladrão de galinha e pergunta:

- Você solta esse para prender este aqui?

Diante de tantos olhos, mas sem qualquer vergonha ou hesitação, ela grita:

- Siiim!

26.11.10

Maria fumaça

As engrenagens
um pouco gastas
em eterno vai e volta
atritam-se - barulhentas

Enquanto isso
sobre as chamas
a válvula dá voz aguda
aos vapores - insistentes

Na estação da memória

entre a máquina de lavar
e a panela de pressão

embarco nesta viagem
às manhãs de domingo
na casa de Maria
minha mãe - locomotiva

25.11.10

Chuva de verão

Quando o calor
tornou-se constante

e as escassas fontes
de água doce
começaram a secar

caminhar pelas ruas
tornou-se um tanto perigoso

lá do alto
choviam corpos
desesperados