15.4.17

Dupla jornada

Andava sempre com aquela bolsa de couro recheada com alicate, bisturi, lixa, tesoura e pinças.

Passava o dia extraindo unhas encravadas, removendo peles, lixando calos, cortando daqui e puxando dali. Durante a noite, o serviço era bem parecido, mas o patrão era um agiota.

Tratava calos e calotes.

14.4.17

Domínio

Vivia pisando em ovos. Sentia-se mal, angustiada; e desequilibrava-se sobre os saltos, com receio de que se rompessem.

Mas pagavam bem.

13.4.17

Impacto

O impacto foi tão violento que o plasma nuclear jorrou em golfadas para além da superfície. A crosta rachada, esfarelada, dispersou-se em estilhaços, disparados a grande velocidade.

O comandante não celebrou a vitória. O senador tentou alentá-lo:

– Não se constrói um Império sem quebrar ovos.

12.4.17

Caroço

Eu andava tenso e, durante o banho, senti um nódulo nas costas. Esgotado, tomei um analgésico e dormi. No outro dia, havia um calombo no local; e incomodava, doía muito! No desespero, cutuquei com uma faca. A pele rasgou e saiu dali um ovo; dentro dele, o pequeno demônio já gritava:

– Queime tudo!

11.4.17

Eclosão

Após os tremores, rachaduras rasgaram a capital. Enquanto prédios iam ao chão e aquela imensa criatura brotava dali, todos corriam desesperados.

Sob um viaduto, três pessoas buscaram abrigo. Quando se reconheceram, riram. Um deles comentou:

– Vocês também se conhecem? Esta cidade é mesmo um ovo.

10.4.17

Pregador

Sobre um caixote de madeira, no meio da praça, vociferava, eloquente, cortando o vento com as mãos. Em seus discursos inflamados, trazia à tona, das profundezas, os maus presságios de um mundo pestilento.

Era um soldado fanático, idealista, travando guerra de trincheira contra inimigos invisíveis.

8.4.17

Crônica

Engolia oito pílulas por dia: uma para acordar; uma para comer; uma para sair de casa; uma para manter o foco no trabalho; uma antes e uma depois da academia; uma para gozar; e outra para dormir.

Entupido de remédios, ainda sentia-se mal. O que tinha não era doença, era sina; e a vida não tem cura.

7.4.17

Colateral

O remédio da pressão piorou a circulação; o da circulação complicou o coração; o do coração corroeu o estômago; o do estômago deu pedra no rim; sobrecarga do fígado; dor nas juntas.

E por fim, naquele equilíbrio tão frágil, de folha de outono em galho seco, um vento gelado e a pneumonia o levaram.

6.4.17

Lucidez

Sonhar com a guerra, naqueles tempos em que só se conhecia a paz, era como dar à luz os horrores das batalhas entre os homens.

Ao acordar, desesperada, contraiu-se, como se tentasse conter aquilo tudo no mundo das ideias, e suplicou: que a Grande Mãe não permita nunca que as mulheres percam o poder!

5.4.17

Referência

No calor da discussão, antes de virar as costas, disse que encontraria milhares iguais a ela.

A profecia cumpriu-se. Desde então, em cada mulher que encontra, há alguma coisa que é dela.

4.4.17

Estilhaços

Após libertar-se daquela relação, fez da mudança um ritual de passagem.

Ao abrir a última caixa e deparar-se com o veleiro aprisionado na garrafa de vidro, não teve quaisquer dúvidas. O fundo da garrafa cedeu nas primeiras pancadas; e, enfim, o vento soprou a favor, com promessas de novos rumos.

3.4.17

O beijo

Aquele beijo foi tão intenso que permaneceria cravejado na memória até o último suspiro.

Depois daquele momento, ele sabia, no entanto, que se tratava de uma questão de horas, talvez dias. A máfia não perdoa.

2.4.17

Epidêmica

Em meio à discussão, sentenciou, com veemência, que homossexualismo era doença

Inflamada, a amiga surpreendeu-a com um beijo

Horas depois, já era impossível conter a febre

1.4.17

I Prêmio IFSC de Literatura

Em outubro de 2016, vislumbrei um desafio: o IFSC publicou um edital de fomento a atividades culturais. O edital previa o aporte de R$ 2.170,00 para financiar atividades culturais a serem realizadas entre os meses de novembro e dezembro daquele mesmo ano.

Com esse valor em mente, comecei a avaliar possibilidades, angariar parceiros e, no final das contas, julguei que seria possível realizar um concurso literário e publicar uma coletânea.

Os autores André Kondo e Edgar Borges, parceiros de longa data no blog Concursos Literários, abraçaram a causa; em especial o André, responsável pela Telucazu Edições, que se comprometeu a ceder gratuitamente o ISBN para a obra. Além disso, a professora Estela se comprometeu a revisar a obra e a bibliotecária Karla se comprometeu a elaborar a ficha catalográfica. Outras pessoas também se envolveram a colaboraram para o sucesso do projeto, com destaque para a Fabi Schrodi, o Daniel Augustin Pereira e também para os estudantes bolsistas do projeto: Luan, Thaline e Thayna.


Após pouco mais de duas semanas de inscrições, recebemos 349 textos e, após a eliminação de 25 deles, pelo descumprimento do regulamento ou por equívoco dos autores no processo de inscrição, 324 foram avaliados pela Comissão Julgadora.

O objetivo da Comissão era selecionar 60 textos para compor a coletânea do I Prêmio IFSC de Literatura. No entanto, selecionamos 69 textos. Dos 69 autores e autoras selecionados, 44 nunca haviam publicado nenhum texto.

A minha trajetória na literatura começou com o saudoso Concurso Nacional de Contos Luiz Vilela; e foi muito interessante poder abrir espaço, através do Prêmio IFSC, tanto para autoras e autores que já circularam por aí quanto para outros que estão vivendo a mesma experiência que vivi lá em 2007, quando vi meu primeiro texto publicado.

Espero ter outras oportunidades para organizar e editar obras de diversos autores e autoras. Que venham os editais! E que se mantenham as parcerias!


Mais informações:
http://premioifsc.blogspot.com.br/

9.3.17

9º Concurso Literário Conto e Poesia - Sinergia

A poesia Quimeras foi selecionada para compor a coletânea do 9º Concurso Conto e Poesia, organizada pelo Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis – Sinergia.